Andar pelas estradas do país afora. Rodar com destino, mas rodar. Na maioria das vezes, a estrada é a única companhia, ou então um ou outro posto de gasolina para desestressar, jogar conversa fora e abastecer: não só o caminhão, mas a pança, principalmente. E Pedrão come… mas come que é uma beleza.
Só que a parada precisa ser rápida. Já é noite e, até o amanhecer, será necessário cruzar o estado inteiro. Para isso, sacrifica algumas horas de sono. Por isso também bebe da água que passarinho não bebe — leia-se rebite. Engole de uma vez só. O efeito vem ligeiro: sente-se um jovem de vinte anos outra vez.
Já são 22 horas. A estrada espera.
Na boleia, vai animado, tudo para fazer jus ao bolero que toca na rádio. Dá uma piscada, mas logo se recupera. Outra piscada… então dá um tapinha no rosto. Vem o bocejo.
— Só mais cinquenta quilômetros e eu paro. Palavra de escoteiro.
Cinquenta viram cinco.
Que viram o caminhão.
Que vinha a 120 por hora.
22h31. Pedrão fecha os olhos para sempre.
O resgate até chega rápido, mas já era. Pedrão preferiu chegar adiantado na próxima vida a chegar atrasado nesta.
Em vida, deu mais ênfase ao trabalho do que a qualquer outra coisa. Via pouco a família, mas, mesmo assim, os filhos amavam o pai. Para a esposa, foi o único homem que ela amou. É impossível medir a dor ao receber a notícia de que ele havia morrido num acidente de estrada.
Agora restava preparar o enterro e começar a bateria de ligações avisando que Pedrão já não estava mais entre nós.
Muita gente apareceu no velório. Muita gente mesmo. Pedrão era querido. Pena que passou tão pouco tempo com a família. Havia vezes em que ficava dois meses longe de casa, dois meses sem ver a esposa e os filhos. Era uma vida difícil. Nem sempre conseguiam se falar por telefone. Ele prometia se aposentar em três anos. Queria aproveitar mais a família.
— Situação difícil, não é mesmo, Marlene? — pergunta Xandra, irmã de Pedrão.
— Estou até sem palavras.
— Existem coisas que fogem da nossa compreensão.
— Verdade. Meu marido era tão cuidadoso… sempre contava dos perigos que os colegas enfrentavam na estrada. Como pode um homem assim morrer de forma tão trágica?
— Isso mostra que ninguém sabe o que nos aguarda lá na frente. Só sabemos que ninguém fura a fila da eternidade.
Marlene era casada com ele havia trinta anos. Tiveram três filhos: Amanda, Luciana e Peter. Todos ainda muito jovens. Apesar da ausência, o pai compensava quando estava presente.
O enterro estava marcado para as quatro horas da tarde. Quando faltavam quinze minutos, avisaram que haveria um pequeno atraso, pois algumas pessoas ainda não haviam chegado.
Marlene disse que não se importava. Afinal, poderia passar mais alguns minutos ao lado do companheiro de toda uma vida.
— Tem muita gente aqui que eu não conheço, mãe.
— Eu também não conheço, Peter. Mas isso é porque seu pai era caminhoneiro. Conhecia gente do país inteiro. Era muito querido.
Nesse momento, entra uma mulher acompanhada de uma garotinha de aproximadamente oito anos. As duas caminham lentamente até o caixão.
— Filha, beija o papai.
Marlene se vira imediatamente.
— O quê? Que história é essa de “papai”?
— Ué… eu sou a mulher dele. E ela é nossa filha. Atrasamos porque moramos longe. Respeite a minha dor.
— A mulher dele sou eu! Tenho três filhos com ele! Sou casada há trinta anos! Você é uma mentirosa!
— Se sou mentirosa, então minha filha é o quê? Ah… você deve ser a ex-mulher dele. Ele me disse que era separado. Sou casada com ele há dez anos. Não sabia que você ainda corria atrás dele.
O barraco toma conta da capela mortuária. Os presentes tentam acalmar os ânimos, mas é em vão. Sobra empurrão e soco até para quem tenta separar.
— Calma, senhoras! Não é assim que se resolvem as coisas! Vamos enterrar o Pedrão primeiro, depois conversamos com calma. O marido de vocês não merece passar por isso no último momento — tenta argumentar Oswaldo, melhor amigo do falecido.
— Olha aqui, Oswaldo… sei que você era o melhor amigo dele, mas não me peça calma! Fui traída a vida inteira! Descubro isso justo no velório dele! Agora entendo por que passava meses fora de casa. Até filha teve com outra!
— Nem eu nem minha filha temos culpa de nada! Ele me disse que era separado! Se alguém foi enganada aqui, fui eu!
— Calma… as duas foram enganadas, mas vamos com calma, o Pedrão não está mais aqui para se defender.
— Defender o quê?! Você não percebe o que está acontecendo? Isso não tem defesa! Bigamia é crime! Meu Deus… eu era casada com um criminoso!
— Os coveiros já estão prontos. Vamos sepultá-lo primeiro, depois conversamos com mais calma.
— Não! Eu me recuso a participar disso! Se eu ficar aqui, sou capaz de cuspir na tumba dele! É melhor só essa aí ir, já que se diz esposa, eu era amante então.
— Marlene, espera…
— Não adianta! Meus filhos e eu vamos embora! E quem é meu amigo vai também! Esse sujeito não merece homenagem nenhuma!
Um a um, os presentes vão embora. Poucos sequer se aproximam do caixão. Todos estão constrangidos com a situação absurda que acabaram de testemunhar.
A segunda mulher olha para a filha.
— Filha… me perdoa. Eu não sabia de nada disso. Trouxe você para se despedir do seu pai… mas agora nem sei o que dizer. Dá um beijinho nele pela última vez. Depois vamos embora também.
Os coveiros agora têm uma boa história para contar. Mas, antes disso, precisam enterrar o homem.
Ninguém acompanha o sepultamento.
Pedrão tinha muitos amigos. Construiu duas famílias. Achou que, mantendo uma em cada estado, jamais teria problemas.
Só não imaginava aquele momento.
Morreu tragicamente. Muitos foram ao velório para homenageá-lo, mas acabaram conhecendo sua verdadeira face.
Quem antes tinha apenas motivos para ser elogiado terminou reduzido à última história que deixou.
Viveu como quis viver.
Mas morreu como plantou: envergonhado.
Mesmo tendo conhecido tanta gente, os únicos que presenciaram a terra cair sobre o caixão foram os três coveiros.
E isso porque eram obrigados
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.
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