Uma equipe de TV está produzindo uma matéria para um programa de auditório dominical. No local, há um túmulo em forma de pirâmide, espelhado, e, dentro, sobre uma base elevada, um caixão de vidro. O corpo já está completamente deteriorado; era para estar preservado, mas, por algum motivo, entrou ar, e o processo natural de decomposição ocorreu.

A ideia da reportagem é contar a história de alguém que não queria ser esquecido, nem após a morte. O sujeito está ali há cerca de 30 anos sendo consumido pelos vermes. Não foi o que ele quis, mas foi o que teve.

A reportagem, em sua passagem, explica:

— Quem visita o Cemitério Central estranha ao ver essa pirâmide. Ela realmente chama a atenção por sua imponência. Mas nem todos sabem por que ela está aqui. Quem descansa aqui por toda a eternidade é Liro Canto, um músico que fez muito sucesso e desejava não ser esquecido. Queria ser lembrado mesmo depois de morto. Mas quem conta melhor essa história é a viúva. Ela tem 97 anos e ainda está bastante lúcida.

Artistas, muitas vezes, gostam de viver em uma realidade paralela. Amam aplausos e tudo o que a fama pode proporcionar. Estar em evidência é necessário; ser esquecido é devastador. Assim era Liro: participava de todo tipo de programa, ia às rádios e fazia shows pelo país inteiro.

Nos camarins, fazia algumas exigências, como frutas frescas e selecionadas: morangos, uvas e lichias. O chuveiro tinha que ser com água mineral; segundo ele, era melhor para a pele. Mas, diante das câmeras, mostrava-se humilde: dizia que vinha do interior e que aprendeu a tocar violão antes mesmo de saber ler.

Esse era Liro em vida. Agora, a viúva conta a razão pela qual ele decidiu ser enterrado de forma tão inusitada.

— O Liro pensava muito em seus fãs. Ele se preocupava com como eles ficariam no dia em que não estivesse mais aqui. Quando adoeceu, falou do desejo de criar um mausoléu para ser enterrado. Queria que os fãs tivessem um lugar para vê-lo, acompanhar sua trajetória e matar a saudade. Nunca pensamos que seria esquecido tão rápido. Antigamente, havia som lá dentro, tocando todos os sucessos dele dia e noite. Um tempo depois, foi roubado. O cemitério até instalou outro, mas também foi furtado. Até que desistiram. E, com a minha idade, não consigo lutar para que isso volte. Além disso, está tudo vandalizado e pichado, e ninguém se responsabiliza.

Fiquei sabendo que quem trabalha lá nem sabe quem foi Liro Canto. O que ele mais temia aconteceu: os pais não passaram suas músicas para os filhos, e logo ele foi esquecido. Engraçado que Elvis é lembrado e tocado até hoje e ele, não.

— Mas, quando ele falava em ser enterrado ali, chegou a pensar que o túmulo poderia virar um centro de peregrinação?

— Ele era muito amado pelos fãs. Era natural pensar que esse amor continuaria mesmo depois da morte. Por isso, planejou cada detalhe. Eu mesma imaginava que todos os dias haveria flores ali, que pessoas iriam cantar suas músicas com ele. Imagino que, onde quer que ele esteja, está muito triste por ter sido esquecido. O único desejo dele era ser lembrado.

Evidentemente, o programa repercutiu, e muitas críticas ácidas foram feitas ao cantor falecido. Chegaram a criar uma petição na internet para incinerar o corpo e demolir o túmulo. Outras mídias também repercutiram o caso e relembraram histórias de bastidores.

O cantor, que não queria ser esquecido e desejava continuar sendo idolatrado mesmo após a morte, agora estava nas trends como o mais odiado. Buscou glória em vida e também na morte, mas aconteceu o oposto.

O caixão de vidro não protegeu o corpo: apodreceu como qualquer outro. A pirâmide, idealizada como tumba, foi pichada; o sistema de som, roubado; flores, raramente recebia.

Assim, se ainda restava algum prestígio, ele se foi — tudo por causa de um ego inflado e, claro, de uma boa reportagem.

 Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência

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