— Vamos começar as audições para o teatro. Os selecionados participarão de um filme. Sei que a expectativa é grande, mas somos muito exigentes aqui.
O anúncio, afixado no mural de uma produtora de cinema, atraiu curiosos, sonhadores e apaixonados pela sétima arte. Todos acreditavam ter talento. Alguns realmente tinham. Outros apenas imaginavam que tinham. Afinal, nem sempre a vontade de atuar vem acompanhada da capacidade.
Ao contrário do que muita gente pensa, um rosto bonito não era o principal requisito para conseguir um papel. Beleza podia até ajudar, principalmente se o personagem fosse um galã ou uma mocinha romântica, mas o diretor buscava algo mais: interpretação.
Jorge R era um jovem diretor que sonhava, um dia, conquistar um Oscar. Evidentemente, aquele filme não lhe renderia a tão desejada estatueta. Seria apenas o primeiro passo, um portfólio para abrir portas e mostrar seu potencial. O grande filme de sua carreira ainda nem existia, nem sequer havia sido imaginado.
Sua noiva, Nathaly R, já estava escalada para o papel principal. Fosse pelo talento ou pelo fato de ser a companheira do diretor, isso pouco importava. A decisão estava tomada, e ninguém ousava questioná-la.
O filme chamava-se Detalhes de Vingança.
Após a seleção do elenco, semanas de ensaios e a gravação das primeiras cenas, toda a equipe já trabalhava em perfeita sintonia. Restava apenas registrar a sequência mais importante do roteiro: a morte da protagonista.
Jorge queria que aquela fosse a cena perfeita.
O roteiro era simples.
Nathaly estacionaria o carro, desceria lentamente, caminharia alguns passos e olharia para o horizonte com expressão de desespero, como se implorasse por misericórdia. Em seguida, encostaria na lataria do veículo. Nesse instante, o vilão dispararia. O tiro atingiria seu peito. O impacto faria seu corpo deslizar pela lateral do carro até cair, sem vida, no chão.
Como Nathaly usaria uma blusa branca e o disparo seria feito com munição de festim, acionando uma cápsula de tinta vermelha presa sob a roupa, Jorge queria que tudo fosse gravado de primeira.
Para evitar qualquer interferência sonora, apenas um número reduzido de pessoas permaneceu no cenário. Com tudo preparado, o continuísta conferiu os objetos de cena e entregou o revólver cenográfico ao ator Tom André, responsável por interpretar o assassino.
— Claquete! Cena cinquenta e cinco. Detalhes de Vingança. Tomada um.
— Gravando!
O carro começou a entrar em cena.
— Corta!
Todos olharam para Jorge.
— Quem deixou aqueles papéis sobre o capô? Esqueceram o roteiro aí.
Ana Flores, uma das assistentes de produção, correu até o veículo. Retirou discretamente o roteiro, aproveitou para alinhar o retrovisor e voltou ao seu lugar. Enquanto isso, alguns membros da equipe empurraram o carro novamente para o ponto inicial.
— Claquete! Cena cinquenta e cinco. Tomada dois.
Agora tudo aconteceu exatamente como planejado.
O carro estacionou.
Nathaly desceu.
Olhou para o horizonte.
Encostou-se ao veículo.
Ouviu-se o estampido do disparo.
Ela deslizou lentamente pela lataria e caiu.
Silêncio.
Jorge sorriu.
— Perfeito! Ficou excelente! Estão todos de parabéns.
Aproximou-se da atriz.
— Amor… pode levantar.
Nenhuma reação.
— Nathaly…
Ela continuou imóvel.
O sorriso desapareceu do rosto do diretor.
Em poucos segundos, toda a equipe cercava a atriz.
O sangue que escorria de seu peito não fazia parte do efeito especial.
Havia uma bala verdadeira dentro daquela arma.
Nathaly respirava com enorme dificuldade. A ambulância foi acionada imediatamente, mas não houve tempo. Ela morreu antes mesmo de chegar ao hospital.
O silêncio que tomou conta do estúdio era ensurdecedor.
Ninguém conseguia compreender como uma cena cuidadosamente planejada havia terminado daquela maneira.
A polícia assumiu as investigações.
Os depoimentos começaram pelo diretor.
— Não consigo entender o que aconteceu. Estávamos realizando um sonho. Conferimos todos os equipamentos inúmeras vezes. Meu único interesse era fazer um bom filme. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer.
O segundo a depor foi o continuísta.
— Ensaiamos essa cena diversas vezes. A arma sempre foi cenográfica. Nunca entrou munição real no almoxarifado. Tenho certeza disso.
Tom André mal conseguia falar.
Chorava sem parar.
— Eu apenas segui o roteiro. Recebi a arma, apontei e apertei o gatilho quando mandaram. Nunca imaginei que houvesse uma bala de verdade. Eu não sou um assassino.
A pergunta permanecia sem resposta.
Quem havia colocado uma arma carregada naquele cenário?
Os investigadores recolheram celulares, computadores, câmeras de segurança e todos os objetos utilizados durante a gravação. Impressões digitais foram coletadas, e cada centímetro do estúdio foi periciado.
O caso tomou conta dos noticiários.
Programas policiais dedicavam horas de transmissão ao assassinato.
Nas redes sociais, surgiram especialistas de ocasião, os famosos “Sherlocks de internet”. Uns culpavam Jorge. Outros acreditavam que Tom havia feito tudo de propósito. Também havia quem suspeitasse do continuísta. Mas, teve gente apostando que a própria moça entregou uma arma carregada para ser baleada, sabe-se lá a linha de raciocínio desta pessoa.
As teorias mais absurdas apareciam diariamente.
Mesmo assim, a investigação avançava.
Três meses depois, Jorge, Tom e o continuísta foram chamados novamente para depor.
O delegado passou horas comparando os depoimentos, cruzando horários, imagens e mensagens recuperadas dos celulares.
Foi então que algo chamou sua atenção.
Uma sequência de acessos escondidos por uma VPN levou os investigadores até conversas apagadas e arquivos que revelavam um planejamento detalhado do crime.
Na manhã seguinte, a imprensa lotava a delegacia.
O delegado iniciou a coletiva.
— Este caso foi extremamente complexo. Muitos acreditaram que tudo não passou de um acidente de trabalho. Outros imaginaram um simples erro de produção. Nenhuma dessas hipóteses estava correta.
Os jornalistas fizeram silêncio.
— Curiosamente, o próprio filme trazia pistas sobre o crime.
O delegado ergueu um exemplar do roteiro.
— Em Detalhes de Vingança, uma personagem planejava um assassinato perfeito para incriminar outra pessoa e fugir do país ao lado de um amante virtual. Ela acreditava que, eliminando quem conhecia seus segredos, teria um futuro livre.
Fechou o roteiro.
— Na vida real, alguém resolveu transformar essa ficção em realidade.
Um repórter levantou a mão.
— Então foi Jorge quem planejou tudo? Eu sabia! Desde o começo achei que fosse ele.
O delegado sorriu discretamente.
— Se sua carreira depender dessa investigação, sugiro procurar outra profissão.
Algumas risadas surgiram entre os presentes.
— O verdadeiro culpado nunca esteve entre os principais suspeitos da opinião pública.
Fez um sinal para os policiais.
Instantes depois, uma mulher entrou algemada, mantendo a cabeça baixa.
Era Ana Flores.
O espanto tomou conta da sala.
— As investigações demonstraram que Ana planejou todo o assassinato. Ela era apaixonada por Jorge desde a adolescência. Nunca foi correspondida.
O delegado continuou.
— Sabendo do sonho dele de dirigir um filme, aproximou-se oferecendo ajuda na produção. Foi ela quem apresentou a ideia inicial da história e passou a trabalhar nos bastidores. Também sabia que Jorge jamais abriria mão de dar o papel principal para Nathaly.
Respirou fundo antes de concluir.
— Durante a primeira tentativa de gravação, quando correu até o carro para retirar o roteiro esquecido sobre o capô, Ana aproveitou o momento de distração da equipe para substituir discretamente o revólver cenográfico por outro, carregado com munição verdadeira. O continuísta, acreditando tratar-se da mesma arma, entregou-a ao ator. O restante vocês já conhecem.
Os fotógrafos disparavam seus flashes sem parar.
Ana permaneceu em silêncio.
— Ela pretendia incriminar Jorge, afastar Nathaly de uma vez por todas e, quem sabe, ocupar seu lugar na vida do diretor. Planejou um filme policial perfeito.
O delegado fechou a pasta do inquérito.
— Conseguiu, de fato, criar um excelente filme policial.
Fez uma breve pausa.
— A única diferença é que, desta vez, o final não foi escrito por ela.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência
