Investimentos em infraestrutura, categorias de base e captação de talentos transformaram os Leões do Atlas em uma das principais seleções do futebol mundial
A presença do Marrocos nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026 está longe de ser uma surpresa. Depois de alcançar uma semifinal inédita em 2022, a seleção africana volta a figurar entre as oito melhores do planeta, consolidando um projeto esportivo iniciado há quase duas décadas e que transformou o país em uma das grandes potências emergentes do futebol mundial.
Nesta quinta-feira (9), às 17h (de Brasília), os Leões do Atlas enfrentam a França em busca de uma vaga na semifinal. O duelo também representa a chance de revanche contra os franceses, responsáveis pela eliminação marroquina na Copa do Mundo de 2022.
Projeto iniciado pela monarquia mudou o futebol marroquino
A revolução do futebol em Marrocos começou em 2007, quando o rei Mohammed VI colocou em prática um amplo plano de desenvolvimento da modalidade em parceria com a Federação Real Marroquina de Futebol (FRMF).
O objetivo era claro: criar uma estrutura capaz de formar atletas de alto rendimento, fortalecer as seleções nacionais e transformar o país em referência no continente africano.
O principal símbolo dessa estratégia é o Complexo Esportivo Mohammed VI, localizado na região metropolitana de Rabat. Inaugurado em 2009 e ampliado em 2019, o centro recebeu investimentos de aproximadamente 55 milhões de euros (cerca de R$ 325 milhões) e é considerado um dos mais modernos do mundo.
A estrutura reúne 11 campos oficiais de futebol, centro médico, hospital esportivo, hotel, alojamentos para atletas, áreas de recuperação física, espaços educacionais, museu e instalações utilizadas por todas as seleções nacionais, desde as categorias de base até a equipe principal.
O complexo também se tornou uma referência internacional, recebendo clubes como o Real Madrid durante o Mundial de Clubes de 2022 e servindo como sede regional da FIFA na África.
Formação de talentos virou prioridade
Mais do que investir em infraestrutura, Marrocos passou a apostar fortemente na formação de jogadores.
Além dos treinamentos técnicos, os jovens recebem acompanhamento escolar, psicológico, médico e nutricional, formando atletas preparados tanto dentro quanto fora de campo.
O projeto também foi descentralizado. Núcleos de desenvolvimento foram implantados em cidades como Casablanca, Marrakech, Fez e Tânger, ampliando o alcance da captação de talentos por todo o país.
Atletas da diáspora reforçaram a seleção
Outro pilar importante da transformação marroquina foi a busca por jogadores nascidos no exterior, mas com ascendência marroquina.
A Federação estruturou uma ampla rede de observação na Europa para convencer atletas formados em grandes clubes a defenderem a seleção nacional.
Um dos principais responsáveis por esse trabalho foi Nasser Larguet, profissional com passagem pelo Olympique de Marselha e escolhido pessoalmente pelo rei Mohammed VI para liderar o projeto esportivo.
Entre os casos de maior sucesso estão Achraf Hakimi, nascido na Espanha e revelado pelo Real Madrid, Brahim Díaz, também formado no clube espanhol, além de nomes como Azzedine Ounahi, Issa Diop e o jovem Ayyoub Bouaddi.
Resultados apareceram rapidamente
Os investimentos começaram a refletir dentro de campo.
Nas categorias de base, Marrocos conquistou uma sequência de títulos internacionais:
- Campeão da Copa do Mundo Sub-20 de 2025;
- Campeão da Copa Africana Sub-17 em 2025;
- Campeão da Copa Africana Sub-23 em 2023;
- Tricampeão do Campeonato das Nações Africanas (2018, 2020 e 2024);
- Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024;
- Quartas de final da Copa do Mundo Sub-17 em 2023.
Grande parte desse sucesso passou pelas mãos do técnico Mohamed Ouahbi.
Nascido na Bélgica e especialista em desenvolvimento de jovens atletas, o treinador assumiu a seleção principal após conduzir Marrocos ao título mundial sub-20 em 2025. A proposta foi dar ao time um estilo mais ofensivo e protagonista, sem abrir mão da organização defensiva que marcou a campanha histórica de 2022.
Antes de chegar à seleção marroquina, Ouahbi participou da formação de jogadores como Jeremy Doku e Youri Tielemans, atualmente destaques da seleção belga.
Campanha consistente na Copa do Mundo
Na Copa do Mundo de 2026, o desempenho confirmou a evolução do futebol marroquino.
Integrante do Grupo C, o Marrocos empatou com o Brasil na estreia e venceu Escócia e Haiti para avançar às oitavas de final.
No mata-mata, eliminou a Holanda nos pênaltis e, em seguida, superou o Canadá para garantir presença entre os oito melhores da competição.
Agora, a seleção africana encara novamente a França, justamente o adversário que interrompeu seu sonho na semifinal do Mundial do Catar.
Marrocos quer provar que sucesso não foi acaso
O desempenho recente mostra que a campanha histórica de 2022 não foi um ponto fora da curva.
Com planejamento de longo prazo, investimentos milionários, desenvolvimento das categorias de base e integração de atletas formados na Europa, Marrocos consolidou um modelo que hoje serve de referência para diversas federações africanas.
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