Leonardo é fanático por futebol. Daqueles que não compram nada que contenha as cores do time rival. É sócio-torcedor, acompanha todos os jogos e gasta pelo menos trinta por cento do salário com o clube do coração. Sua conversa principal? Futebol, obviamente.

Diferente de outros torcedores do mesmo nível de fanatismo, jamais saiu no braço com alguém. Ficava apenas nos xingamentos e discussões acaloradas. Quando não estava no estádio apoiando sua “paixão”, estava com os amigos jogando bola. Não era nenhum craque, mas também não chegava a ser um completo bola-murcha.

Foi justamente em uma dessas peladas que tudo aconteceu.

Lá pelos quinze minutos do segundo tempo, Leonardo simplesmente desmaiou em campo.

Uma ambulância foi chamada às pressas. Apenas o irmão o acompanhou ao hospital. Os outros companheiros até ficaram preocupados no início, mas não demorou muito para começarem as piadas.

— Mulherzinha! Não aguenta correr meia hora!

No hospital, Leonardo foi submetido a vários exames. O resultado demorou, mas chegou.

O médico chamou o irmão para conversar reservadamente.

— Seu irmão vai precisar de um transplante de medula.

— Ele vai entrar naquela fila enorme esperando alguém compatível aparecer?

— Só se ninguém da família for compatível primeiro. Vamos começar pelos parentes mais próximos.

— Nossa mãe já tem setenta e dois anos. Essa responsabilidade sobra para mim, então.

— Ótimo. Vá até o laboratório. Precisamos coletar uma amostra do seu sangue.

Horas depois, saiu o resultado.

— Você é compatível.

O irmão ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu friamente:

— Só tem um problema. Eu me ofereci porque achei que não daria compatibilidade. Então não vou doar. E ninguém pode me obrigar.

O médico o encarou sem acreditar.

— Estou assustado com o que ouvi.

— Não dou nem mesada pros meus filhos, vou dar medula pros outros?

O médico respirou fundo.

— Sua consciência deve ser um lugar bem complicado de viver.

— Só peço uma coisa: não conte para ele que sou compatível. Não quero que pense que sou um cretino.

— Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo. Mas saiba de uma coisa: quanto mais o tempo passa, menores são as chances dele.

Os dias foram passando.

Leonardo começou a perder a esperança. Pela primeira vez na vida, sentia medo da morte. O futebol já não parecia tão importante. Nem televisão queria assistir.

Até que, certa tarde, o telefone tocou.

Era o hospital.

Saiu correndo até o consultório médico.

— Você tem mais sorte do que juízo — disse o médico. — Encontramos um doador compatível.

— Sério? De onde ele é?

— Mendoza.

— Isso fica perto de quê?

— Fica na Argentina.

Leonardo arregalou os olhos.

— Argentina? Não quero!

O médico tirou lentamente os óculos, colocou-os sobre a mesa e respirou fundo.

— Desculpe… o quê?

— Não quero medula de argentino.

— Você está recusando um transplante porque assistiu futebol demais?

— O senhor sabe como eles são…

— Não. Quem não sabe como as pessoas são é você.

O consultório ficou em silêncio.

— Em trinta anos de profissão — continuou o médico — achei que já tivesse ouvido de tudo. Mas isso consegue ser novo. Futebol como diversão? Ótimo. Futebol como desculpa para odiar gente que você nunca viu na vida? Patético.

Leonardo abaixou os olhos.

— Eles provocam o Brasil…

— E brasileiros fazem exatamente a mesma coisa. Isso é espetáculo esportivo, não guerra civil. Enquanto torcedores se odeiam, dirigentes ficam milionários e jogadores gastam fortunas em festas. E agora um homem que você nunca viu está disposto a salvar sua vida.

O médico fez uma pausa antes de completar:

— Aliás… seu irmão também poderia salvar. Mas se recusou.

Leonardo levantou a cabeça rapidamente.

— Meu irmão era compatível?

— Era.

— E não quis doar?

— Não.

Leonardo ficou em silêncio.

— Então… quando começa?

— Não é exatamente uma cirurgia como você imagina. É um transplante por transfusão. Vamos iniciar os exames finais e a parte burocrática. Se tudo correr bem, você ganhará uma nova data de aniversário.

Chega o dia do procedimento.

Leonardo estava apreensivo, mas tudo ocorreu bem. Agora era aguardar a reação do organismo e seguir todos os cuidados médicos.

Sem muito o que fazer no quarto do hospital, resolveu atualizar o blog que mantinha havia anos.

Escreveu:

“Hoje eu finalmente entendi uma frase que sempre ouvi: ‘As pessoas boas devem amar seus inimigos’.

O problema é que eu descobri que meus inimigos nunca existiram de verdade.

Passei anos acreditando em rivalidades criadas para vender jornal, gerar audiência e movimentar dinheiro. Enquanto eu alimentava raiva por pessoas que nunca conheci, um argentino desconhecido decidiu salvar minha vida.

Foi preciso chegar perto da morte para perceber o tamanho da estupidez humana.

Futebol já foi paixão. Hoje virou negócio. Enquanto torcedores brigam e até morrem por clubes, dirigentes enriquecem e jogadores vivem como celebridades inalcançáveis.

O mais engraçado é que eu cresci ouvindo que argentinos odiavam brasileiros. Mas um argentino teve mais compaixão por mim do que meu próprio irmão.

 Deus realmente não vê fronteiras quando olha para nós. Talvez essas fronteiras existam apenas porque os homens precisam inventar motivos para se sentirem diferentes uns dos outros.

A Argentina continua sendo linda. O Brasil também. E nenhum gol jamais será mais importante que uma vida.”

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência

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