Todo dia é a mesma coisa: acordar às 6h da matina. Dona Elizabeth, hoje com 55 anos, acorda de mau humor desde que seus pais a obrigaram a estudar de manhã. E isso se vão 50 anos. Depois da escola, veio a faculdade, o trabalho e todos os afazeres da vida. Ela não dá nem bom dia para o marido, e ele também não se atreve. Dá última vez que se atreveu, uma moldura do criado- mudo foi parar em seu rosto. Se dependesse dela, a vida começaria depois do meio dia.
Dona Elizabeth gosta tanto de dormir que um dia fez uma proeza: Foi dormir numa sexta-feira e acordou domingo às quatro horas da tarde. E só se deu conta quando ligou a TV, pois queria ver o Raul Gil, mas era o programa Silvio Santos que estava passando. Mesmo assim, achou graça do recorde que tinha quebrado.
Então, agora vocês sabem mais ou menos como é a Dona Elizabeth. Portanto, não dê bom dia para ela ou… sofra as consequências.
O dia começa e o despertador toca, mas teve um porém: como a pilha do despertador estava ficando fraca, isso fez com que o relógio trabalhasse mais devagar. Ou seja, não eram 6 horas, eram 06:45 min. Imagine os adjetivos “carinhosos” que saíram da boca de Dona Elizabeth. Como o tempo perdido não volta mais, ela como de costume, logo tratou de fazer a higiene e se arrumou para ir ao trabalho. Não tomou café, iria tomar no serviço.
O ponto de ônibus ficava a 20 metros do portão da casa dela. A lei de Murphy sempre funciona, ainda mais para alguém com a personalidade dela. Neste dia, o ônibus havia quebrado, sendo assim, tinha que ficar esperando outro coletivo aparecer. Passaram 5 minutos, passaram 10, passaram 20… a pressão arterial, lógico, foi lá para cima.
Coitada das pessoas que estavam no ponto com ela:
— Que falta de respeito com a gente, quase uma hora esperando e não aparece nada!
— Uma hora não digo, mas uns quinze, sim.
— Que quinze, que nada! Fazem isso de propósito. Aposto que o motorista e o cobrador estão lá no ponto final, tomando café, e o povo aqui que se lasque.
— Não creio que seja isso, mas também se estiverem, é o direito deles, comer.
— Que comam depois que a gente for embora!
— Pode ser que aconteceu algum acidente no caminho.
— É, percebeu que eles sempre têm uma desculpa, e quem se prejudica somos nós que temos horário.
— Eu sou da opinião que certas coisas acontecem para evitar que algo pior aconteça lá na frente. Prefiro chegar atrasado nessa vida a adiantado na próxima.
Pronto, foi o suficiente para que o homem escutasse até o que não devia. Foram cinco minutos até o ônibus vir. Subiu os três degraus do ônibus já gritando:
— Poxa vida! Olha aqui, 30 minutos esperando os bonitões, por acaso está escrito “palhaça” na minha cara? — questiona ao motorista.
— O ônibus da linha quebrou, foi necessário chamar o reserva, e para isso há uma burocracia. Se tem uma reclamação, que faça direto à empresa.
— Mas é isso que vou fazer assim que chegar ao serviço.
Ela parou na frente do cobrador, abriu a bolsa e tirou uma nota de R$20. A passagem custa R$2,20.
— A senhora não tem trocado? Acabei de trocar uma nota, e sendo começo do dia, estou sem troco.
A “gralhação” foi com o cobrador, agora.
Ele para evitar que o dia começasse mal, disse:
— Olha, passe aí, não precisa pagar, não fará falta para mim. Depois coloco no meu relatório, tiro do meu bolso e pago sua passagem. Tenha um bom dia.
A mulher passa a catraca e já puxa a corda para descer. O ônibus andou exatamente duas quadras. Assim, que ela desceu, o homem que estava no ponto com ela começou a conversar com o cobrador:
— Essa mulher estava meia hora lá no ponto, só reclamando, entrou no ônibus ofendendo vocês que estão trabalhando. E para quê? Andar duas quadras, duas quadras. Se ela fosse a pé, em cinco minutos estaria no serviço e evitaria todo esse desgaste. Será que ela tem medo de cair as penas fora?
— Isso é comum, tem um bocado de gente que pega o ônibus num ponto e desce no outro.
— Nossa, como esse povo é preguiçoso! Como seria bem melhor a vida se o pessoal fosse diferente. Acho que é por isso que ela está gorda: tem preguiça de caminhar duas quadras. Perdeu meia hora no ponto, se fosse caminhando já estaria trabalhando há um bom tempo.
—Verdade, mas não ligamos. Pelo menos temos história para contar, e aquela mulher é digna de pena. Duas quadras de atmosfera pesada não apaga o dia lindo que Deus fez para nós. Afinal ainda podemos respirar enquanto nosso coração bate.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.
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