Em mensagem direta ao povo iraniano e à comunidade internacional, o príncipe herdeiro defende uma virada radical na política externa, incluindo a normalização de laços com os EUA e o fim do apoio ao terrorismo.
O príncipe herdeiro do Irã, Reza Pahlavi, reacendeu o debate sobre o futuro geopolítico do Oriente Médio ao declarar, na última quarta-feira (14), que um futuro governo democrático no Irã reconhecerá imediatamente o Estado de Israel. Atualmente exilado nos Estados Unidos, o filho do último Xá tem intensificado sua comunicação com os iranianos que protestam contra a teocracia dos aiatolás, desenhando o que seria um Irã pós-República Islâmica.
O “Verdadeiro Irã” e o Fim do Isolamento
Em um vídeo direcionado à população que sofre com a repressão interna, Pahlavi buscou dissociar a imagem do país das políticas do atual regime. “Sob o jugo da República Islâmica, o Irã é identificado com terrorismo, extremismo e pobreza. O verdadeiro Irã é um Irã diferente. Um Irã bonito, amante da paz e próspero”, afirmou.
Segundo o príncipe, a queda do regime atual resultaria no desmonte imediato do programa nuclear militar e no corte de financiamento a grupos extremistas. A proposta de Pahlavi foca na cooperação internacional para combater o crime organizado e o tráfico de drogas, além da restauração da “amizade histórica” com os Estados Unidos.
Dos “Acordos de Abraão” aos “Acordos de Ciro”
O ponto mais contundente da declaração foi a proposta de criação dos “Acordos de Ciro”. O nome é uma referência direta a Ciro, o Grande, o rei persa que libertou os judeus do exílio na Babilônia e permitiu a reconstrução do Templo de Jerusalém.
A ideia de Pahlavi é expandir os atuais Acordos de Abraão — que normalizaram relações entre Israel e nações árabes — para incluir um Irã livre.
“O Estado de Israel será reconhecido imediatamente. Buscaremos a expansão dos Acordos de Abraão para os Acordos de Ciro, reunindo um Irã livre, Israel e o mundo árabe”, declarou.
A retórica de Pahlavi encontra eco nas falas do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que frequentemente diferencia o povo iraniano de seus governantes. Netanyahu também já citou Ciro como um “grande amigo” do povo judeu, reforçando a tese de que a hostilidade atual é uma interrupção de uma amizade milenar.
Uma Liderança no Exílio
Reza Pahlavi vive nos EUA desde a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou seu pai, Mohammad Reza Pahlavi. Embora não detenha poder institucional, ele se posiciona como um símbolo de transição para uma democracia pluralista.
A mensagem surge em um momento de extrema fragilidade para Teerã. O país enfrenta:
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Crise Econômica: Fruto de sanções severas e isolamento diplomático.
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Pressão Popular: Ondas recorrentes de protestos por liberdade civil.
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Conflitos Regionais: Tensão crescente com Israel e potências ocidentais.
Para a diáspora iraniana e setores da oposição interna, as palavras de Pahlavi não são apenas diplomacia, mas a promessa de um retorno às raízes de uma civilização que, antes da teocracia, via-se como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente.
O Elo Milenar: Ciro, o Grande, e a Libertação dos Judeus
A escolha do nome “Acordos de Ciro” por Reza Pahlavi não é meramente estética; ela evoca um dos capítulos mais significativos da história antiga e da teologia judaico-cristã. A figura de Ciro II da Pérsia (550–530 a.C.) é o alicerce de uma amizade que durou mais de 2.500 anos, antes de ser interrompida pela Revolução de 1979.
O Edito de Ciro e o Fim do Exílio
Em 539 a.C., após conquistar a Babilônia, Ciro emitiu um decreto que permitia aos povos cativos retornarem às suas terras e praticarem suas próprias religiões. Para o povo judeu, que vivia há décadas no “Cativeiro da Babilônia”, isso significou o direito de retornar à Judeia e reconstruir o Segundo Templo de Jerusalém.
Este ato de tolerância religiosa é registrado no Cilindro de Ciro, hoje considerado por muitos historiadores como a primeira declaração de direitos humanos da história.
O Único “Messias” Estrangeiro
Na Bíblia Hebraica, o impacto de Ciro foi tão profundo que ele é o único líder não judeu a receber o título de “Ungido” (em hebraico, Mashiach ou Messias). No livro de Isaías (45:1), o texto afirma:
“Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita para abater as nações diante dele”.
Para os judeus, Ciro foi um instrumento divino de justiça e libertação. Essa conexão espiritual e histórica explica por que, ainda hoje, o nome do rei persa é respeitado em Israel, dando nome a ruas e sendo lembrado em discursos políticos, como os de Benjamin Netanyahu.
Por que isso importa hoje?
Ao propor os “Acordos de Ciro”, o príncipe herdeiro tenta enviar três mensagens simultâneas:
Ao povo de Israel: Que a hostilidade do atual regime é uma “anomalia histórica” e que a identidade persa original é de amizade com os judeus.
Ao povo iraniano: Um apelo ao orgulho nacional pré-islâmico, focando na glória do Império Aquemênida como um exemplo de tolerância e prosperidade.
Ao Ocidente: Que um novo Irã não seria um vizinho perigoso, mas um garantidor da estabilidade regional, retomando seu papel histórico de mediador.
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