6h30. O despertador tocando, tocando:

— Bom dia, Melissa!

Silêncio.

Puxa, mas que sono pesado. O despertador acordou o prédio inteiro e nada de Melissa levantar. O pai teve que ir até o quarto da filha, desligar o aparelho e chamá-la. A garota parece ter sono de pedra: pode cair o mundo que não levanta. Tentou até chacoalhar.

Nada. Não ouve. Tem sono muito pesado mesmo.

— Você vai se atrasar para a escola. Depois acorda e sai correndo sem tomar café.

Bate a porta.

Dois minutos depois.

O assovio do WhatsApp quebra o silêncio do quarto.

Melissa pula da cama e grita:

— Por que ninguém me acordou? Agora só vou chegar para a segunda aula. Nem o despertador tocou!

— Não só tocou como acordou todo mundo, menos a bonitinha aí.

— Ainda bem que meus amigos me mandaram mensagem. Eu ainda estava dormindo.

— Como pode não ouvir o despertador, mas ouvir o WhatsApp?

— É que você é quadrado. Nasceu no século passado… aliás, no milênio passado. Tem que se modernizar, cara.

Melissa confere as mensagens do grupo da sala de aula.

Ao todo são 30 mensagens. Eis algumas:

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Nos outros grupos, a mesma coisa.

E isso anda se repetindo quase diariamente. Há até a coragem de dar “bom dia” para pessoas que nem se olham na cara no resto do dia.

Melissa nem terminou de se vestir, mas já está com os fones de ouvido. A música é tão alta que até quem está sem fone escuta.

A garota estuda de manhã e tem o resto do dia livre. Não faz nada além de estudar. Porém passa o dia inteiro bocejando. Ela não sabe o porquê.

Mas a explicação é simples: fica até às duas da manhã nas redes sociais.

Quem leva a menina para a escola é a mãe, afinal fica no caminho da academia.

Durante o percurso, Melissa está vidrada no celular. Nem pisca. Está se atualizando pelo Facebook.

Lá descobre que a melhor amiga foi à festa da prima e nem a chamou — embora Melissa nem conheça a prima.

Mesmo assim, deixa um comentário irônico na foto:

“Melhores amigas… só que não.”

Descobre também que o professor de História havia passado um trabalho há um mês para entregar naquele dia. Ela e mais quinze colegas esqueceram.

Porém, em vez de pedir clemência ao professor, usaram o tempo para ofender os nerds.

Também curtiu fotos das consideradas “patis” da escola.

Quando chegou ao colégio, nem se despediu da mãe. Bateu a porta do carro e os olhos continuavam no aparelho.

Cinco minutos depois, lembrou que não disse tchau.

Mas não teve dúvida. Antes de entrar na sala, escreveu em sua linha do tempo:

“Minha mãe é a melhor. Amo você. Boa academia, mamis.”

1ª aula: Filosofia

Professor:

— Neste bimestre não penso em passar prova. Penso em avaliar vocês de outra forma, com um trabalhinho bem simples. Vocês nem terão tanto sacrifício para obter êxito. Topam?

— O que temos que fazer? — questiona um aluno.

— Ficar um mês sem utilizar redes sociais. Se conseguirem, nota 10. Caso contrário, zero.

— Como o senhor vai saber quem ficou ou não?

— Eu saberei.

— Saberá nada. Não existe geração mais esperta que a Z.

O professor respira fundo.

— Geração esperta? A geração Z, se for a uma biblioteca fazer uma pesquisa, não tem ideia de como procurar o que quer. A tal geração esperta, se não se locomover via GPS, se perde na própria quadra. A geração que, se os pais morrerem, a única coisa que saberá cozinhar é miojo e brigadeiro.

A geração revolucionária não sabe o prazer de brincar no quintal e se sujar de terra. Não sabe como é divertido um jogo em família. Não tem noção de como é bom conversar com os amigos olhando nos olhos, e não por uma tela.

Não se preocupem. A minha geração — não importa qual letra seja — não nasceu para levar chapéu da última letra. Pois ela não passa de última.

O que viria depois de Z?

Nada.

Eu saberei quem ficou e quem não ficou.

No recreio

— Então o filósofo metido a professor acha que nossa geração é inferior à dele? Ele acha que não temos capacidade de ficar sem tecnologia?

— Vamos provar que ele está errado!

— Vai ser legal no final do mês ver a cara dele de perdedor. Vamos entrar para a história do colégio.

— Mas antes vamos tirar uma selfie e postar no Instagram.

— Já tenho até legenda: “Por motivo de intimidação da geração A (nem sei se existe hahaha), estamos um mês sem internet. Mas ao final sairemos vitoriosos.”

Próxima aula: Geografia

— O trabalho deste bimestre é simples — disse a professora. — Quero que vocês façam uma análise do cenário atual da Síria. Podem fazer uma contextualização histórica.

— E outra coisa: já sei qual foi o trabalho do professor de Filosofia. Sendo assim, para não atrapalhar a ideia dele, vocês podem fazer em papel almaço mesmo. Caneta azul ou preta. Na biblioteca e nos jornais há muita informação.

— Melissa, o que é papel almaço? — pergunta uma colega.

— Ah, que pergunta boba, Bruna. Papel almaço é uma folha A4 amassada.

— Depois da aula vamos fazer esse trabalho e matar logo.

— Vamos sim.

Depois do sinal.

— Como vamos saber chegar à biblioteca sem usar aplicativo? Tenho vergonha de perguntar.

— Não esquenta, Bruna. Peço para minha mãe levar a gente. Sussa. Não vamos dar o braço a torcer.

Mas a mãe de Melissa não podia levá-las. Precisava trabalhar.

Sugeriu que ela pedisse para o pai.

Mas Melissa não podia mandar mensagem.

Precisava tirar 10 em Filosofia.

O que fazer?

— Não sei como a humanidade sobreviveu todos esses anos sem tecnologia. Não dá para fazer nada! Não dá para se localizar. Tudo é confuso.

— A gente olha o mapa e parece que um bebê riscou tudo.

— Será que esse povo nunca ouviu falar de Google Earth?

— E a professora de Geografia quer o trabalho à mão. Ela que se prepare para decifrar garranchos. Minha letra está mais para árabe do que para português.

— E não podemos comprar ingressos da nossa banda favorita. A venda é só online!

— Nossa vida social acabou!

— Olha o número de mensagens do WhatsApp que não posso ler. Já passou de mil!

— É o fim.

— Mas prefiro reprovar a ficar sem internet.

— Como vamos saber o que as metidas da outra turma estão fazendo?

— Como manipular fotos para parecer que somos melhores que elas?

— Como tirar foto no espelho fazendo biquinho?

— Como mandar mensagem para provocar os gatinhos?

— Um mês sem inventar histórias nas postagens!

— Quer saber? O trabalho de Geografia vamos terceirizar.

— Vou pedir para o nerd do João fazer.

— Como é à mão, a professora não pode acusar de Ctrl+C, Ctrl+V.

Parecia um bom plano.

Mas João tinha princípios.

João não topou.

As meninas desistiram do trabalho.

O dia passava e elas ficavam mais ansiosas. Nervosas.

Precisaram até tomar remédio para dor de cabeça.

O único aparelho liberado era a televisão.

Mas as séries não tinham graça.

Elas já tinham visto tudo no YouTube.

Sem nada para fazer, Melissa foi dormir cedo.

20h já estava na cama.

Naquela noite sonhou que era uma celebridade no YouTube, famosa no Facebook, cheia de seguidores no Twitter e com o Instagram bombando.

E isso se repetiu durante uma semana.

A cada dia Melissa ficava mais quieta.

Nem parecia aquela garota travessa e cheia de vida.

— Algum problema, meu anjo? — perguntou o pai. — Já faz dias que você está com essa carinha.

— Não deveria falar… mas meu professor de Filosofia me violentou.

— O quê?! — grita o pai.

— Sim. Mas não só a mim. A todos da turma.

— Como assim?

— O trabalho é ficar um mês sem internet.

— Eu não aguento mais.

— Para quem tem até o nascimento compartilhado no YouTube, ficar horas sem ver a luz do monitor é o pior tipo de violência.

— Isso foi só isso?

— E das bravas, pai! Hoje vamos conversar com o professor.

Na aula

— Professor, o senhor está sendo um tirano.

— É mesmo, Raul? Por quê?

— Eu era o melhor da minha família no Criminal Case. Só esta semana perdi oito batatas.

— E você acha que sou tirano por isso?

— Mais alguém?

— Meu namorado mora na Itália. Agora não sei o que ele está pensando.

— Você o conhece pessoalmente, Tânia?

— Não.

— O meu caso é mais grave — disse Mateus. — Eu estudo para o vestibular pela internet. Não tenho rede social. Estou sendo prejudicado.

O professor suspira.

— Com exceção do Mateus, todos vocês usam a internet para bobagens.

— O que acrescenta saber como vive alguém de quem vocês nem gostam?

— Como vão aprender a viver se não sabem fazer nada fora do virtual?

— Vocês reclamam que nem o aniversário dos pais lembram sem o Facebook avisar.

— Acham isso normal?

— A internet é uma ferramenta quase infinita de informação. Usem para coisas que prestem.

— Tudo bem ter rede social. Mas saibam usar.

— Olhem uns para os outros.

— Estão fazendo papel de bobos.

Um aluno responde:

— Professor, o senhor pode ter razão. Mas desde que nascemos temos esse conforto. Ninguém nos ensinou diferente.

— Nossos pais até davam isso para não precisar cuidar.

O professor responde:

— Infelizmente isso é verdade.

— Mas dói imaginar como será o futuro.

— O homem cada vez mais isolado.

— Afastando quem está perto e trazendo para perto quem está longe.

— Não se preocupem com a nota. Todos terão notas satisfatórias.

— Só quero que aprendam uma coisa:

Existe vida aqui fora.

Aqui as pessoas são reais.

Aqui há sentimentos.

Não passem a vida real de vocês offline.

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência
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