O mito do “cérebro de exatas”: Por que ele não existe (e por que ainda insistimos nele)

Pesquisas apontam que a facilidade com números não é um dom biológico, mas o resultado de um ambiente educacional acolhedor e de uma base sólida.

“Nunca fui de exatas.” A frase, repetida com naturalidade em escolas, universidades e mesas de bar, carrega um tom de resignação. É como se a matemática e a física fossem territórios cercados por muros invisíveis, acessíveis apenas a quem nasceu com um “chip” especial.

No entanto, a ciência e a pedagogia são categóricas: não existe um cérebro programado para exatas. O que existe é um cérebro treinado — ou um cérebro convencido de que não é capaz.

A biologia é a mesma; o treino é que muda

Do ponto de vista neurológico, não há distinção entre o “aparelho” usado para resolver uma equação e o usado para interpretar um texto. Habilidades matemáticas são construídas através de prática, repetição e correção, da mesma forma que a escrita.

A grande armadilha das exatas é o seu caráter cumulativo. Diferente de outras áreas, uma lacuna não resolvida no início da vida escolar se transforma em um abismo anos depois. Sem intervenção para reconstruir essa base, o aluno desenvolve uma sensação constante de atraso. O rótulo de “não sou de exatas” não nasce com a criança; ele é construído pelo sistema.

O “Talento” Sob a Lupa

O que chamamos de talento inato, muitas vezes, é apenas familiaridade precoce. Especialistas apontam que os alunos considerados “brilhantes” geralmente compartilham um histórico comum:

  • Contato precoce com números e raciocínio lógico.

  • Menos interrupções no fluxo de aprendizagem.

  • Incentivo familiar ou de professores que desmistificaram a disciplina.

  • Espaço para errar sem humilhação.

Essa combinação gera confiança e, consequentemente, melhor desempenho. Para quem olha de fora, parece mágica. Na prática, é história acumulada.

O idioma dos números

Resolver um problema matemático exige interpretar enunciados, estabelecer relações e construir raciocínios lógicos. As mesmas funções mentais usadas para escrever um bom artigo. A diferença reside no idioma simbólico. Quando ninguém traduz essa língua de forma eficiente, o aluno passa a se sentir um estrangeiro dentro da própria sala de aula.

“Dizer que a matemática ‘não é para todos’ é uma forma conveniente de transferir a responsabilidade do ensino para o aluno.”

O erro como sentença, não como degrau

Um dos maiores vilões do aprendizado de exatas é a cultura do acerto imediato. Enquanto em outras áreas o erro é visto como parte do amadurecimento, na matemática ele frequentemente vira nota baixa, que vira rótulo, que vira identidade. Esse bloqueio emocional impede o aprendizado antes mesmo do primeiro cálculo.

Muitas vezes, a frase “sou de humanas” é apenas um código para “fui melhor acolhido e ensinado em humanas”. Nestas áreas, costuma haver mais tolerância ao tempo de maturação do aluno.

Um mito que convém ao sistema

Manter vivo o mito do “dom para exatas” serve a um propósito: justifica falhas do sistema educacional e normaliza métodos de ensino ineficazes. É mais fácil dizer que o aluno não tem o “perfil” do que questionar como a matéria está sendo apresentada.

A verdade é incômoda, mas libertadora: exatas não são para poucos. São para quem teve base, tempo, orientação e, acima de tudo, acolhimento. O desafio do futuro não é fabricar gênios, mas parar de convencer pessoas brilhantes de que elas não são capazes de entender o mundo através dos números.

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